Mobilidade urbana: a importância da política tarifária para um transporte de qualidade

Mobilidade urbana: a importância da política tarifária para um transporte de qualidade

Transporte público de qualidade exige investimentos que não podem ser assumidos somente pelas empresas privadas. Rede de transporte que integra diferentes modais requer uma política tarifária que mantenha o sistema economicamente equilibrado. E as gratuidades previstas na legislação precisam de fontes de custeio para não onerar todos os passageiros. Estas foram as conclusões de especialistas em transporte que participaram da terceira edição do Extra Conecta, projeto do jornal Extra para discutir a mobilidade urbana no Estado do Rio com o apoio da Fetranspor.

Representante da Frente Nacional dos Prefeitos, Gilberto Perre, que há oito anos é o secretário-executivo da entidade, chamou a atenção durante o debate para o fato de os gestores públicos defenderem um olhar atento sobre cada uma das variáveis que influenciam no custo do transporte.

– Os prefeitos não veem uma saída mágica para o custo do transporte. Um problema complexo como o da tarifa não tem solução que se tire da cartola da noite para o dia. A desoneração do setor, com a retirada de impostos dos insumos que mais colaboram para o custo da tarifa, como o diesel e a venda dos ônibus, certamente reduziria o custo do transporte e permitiria mais investimentos em qualidade – afirma Gilberto Perre, acrescentando: – Dez centavos a mais no preço da gasolina reduziriam em R$ 0,30 a tarifa de ônibus sem afetar a inflação. Não podemos sobrecarregar mais os que já têm pouco.

Já o espanhol Lluís Vidal, integrante do Comitê de Operações de Ônibus da UITP (Associação Internacional do Transporte Público), acredita que a tarifa cobrada diretamente ao passageiro não pode cobrir sozinha todos os custos e investimentos necessários para a formação e manutenção de uma rede integrada de transporte coletivo.

– É preciso satisfazer a necessidade dos usuários oferecendo um transporte totalmente integrado, eficiente e conveniente, com uma entidade central tarifária – explica Lluis Vidal.

Por sua vez, o diretor Administrativo e Institucional da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos), Marcos Bicalho, apresentou uma pesquisa da entidade que mostra que os automóveis já ocupam 80% do espaço público no país, transportando apenas 20% de seus passageiros e aumentando as retenções no trânsito nas cidades urbanas.

– Os congestionamentos podem aumentar em até 25% o custo do transporte público. Quando uma pessoa opta por usar seu carro, ela está impactando no aumento do valor da tarifa. Uma opção para solucionar esse problema seria taxar a gasolina e reverter essa arrecadação para o setor- revela Bicalho.

O diretor observa ainda a importância de discutir publicamente o peso das gratuidades na composição da tarifa. De acordo com a NTU, uma em cada seis viagens é gratuita:

A Constituição Federal determina a gratuidade para a terceira idade, mas não aponta nenhuma fonte de custeio. Existe, por exemplo, o Fundo Nacional do Idoso. Do jeito que está, são gastos que acabam incidindo sobre o usuário comum. Não existe almoço grátis.